Editorial

Agosto 1, 2022

Há os dias de semear. E há os dias de colher. Semear, mesmo que trabalhoso, proporciona um grande prazer. Já a colheita, o resultado dessa semeadura ou plantio, ainda que represente a conclusão do projeto inicial nem sempre traz satisfação. A terra é sempre fértil, já que falamos das emoções da alma. Conforme o que nela for depositado, os frutos serão doces, suculentos, nutritivos. Ou não.

Quando decidimos o que queremos para nós e nos esquecemos do conjunto a que pertencemos, na época de receber o resultado das nossas escolhas, deparamo-nos com azedume e amargor com que não contávamos porque, imprevidentes, insensatos, ignorámos o querer e a sensibilidade dos outros para que apenas a nossa vontade e os nossos interesses prevalecessem. Tínhamos traçado esse rumo e convencemo-nos de que seríamos invencíveis, que a nossa determinação faria de nós os vencedores incontestados.

Na nossa cegueira, ocupados com os nossos interesses, nem reparámos no ódio crescente com que eramos observados. As vitórias pareciam doces, suculentas, nutritivas, mas a alma permanecia sedenta de mais, sempre de mais. Alguma coisa, porém, o tempo nos trouxe de diferente. Era o tédio das amizades vãs, o bafio do hábito de acumular riquezas sem utilidade para ninguém, o vazio interior mesmo que nenhum desejo ficasse por realizar. Ainda que o resultado da nossa sementeira, apenas para nós, fosse amargo já seria difícil de suportar. Mas quando muitos outros corações sofreram para que alcançássemos os nossos objetivos, à nossa aflição são somadas as aflições de todos eles.

O nosso corpo eterno guarda as marcas de todos os acontecimentos. As marcas dolorosas transmitem-se ao corpo físico e aí estão as dores de todos os matizes, de todos os nomes, silenciosas ou gritantes. Essa é que é verdadeiramente a hora de colher. Os outros resultados eram meras ilusões, castelos que desmoronaram sem que nada o pudesse evitar. É a tomada de consciência de que nunca estivemos sós, nunca fomos únicos e que os outros têm os mesmos direitos. Surge a justiça, cega e imparcial que analisa os atos, os factos e estabelece as consequências.

Os insensatos de ontem voltamos em dor e torturas de alma, para uma sementeira diferente. Já experimentámos tudo aquilo que o mundo tem para nos oferecer? Muito bem. Agora é a hora de conhecermos as verdadeiras alegrias da alma, aquelas de que sempre sentimos falta, mas que não soubemos procurar da forma certa. E aí estão a paciência, a resignação, o estoicismo, a limitação física e mental, a aceitação das atuais condições e a aprendizagem de aproveitar o melhor de cada situação para manter o equilíbrio e a confiança na vida.

E está tudo bem, está tudo certo: “Bem-aventurados os aflitos… os que choram… os famintos e sequiosos de justiça”. São os dias de construção da paz, da alegria de viver, da comunhão com tudo e com todos. E está tudo certo: “Pois que é deles o reino dos céus “-” Ditosos sois vós que agora chorais, porque rireis”.

Carmo Almeida

 

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